Rock piauiense é tema de tese de doutorado

Por Thiago Meneses
É com grande satisfação que venho compartilhar com vocês a minha tese de doutorado em sociologia, desenvolvida na Universidade do Porto. Intitulada “Genealogia, morfologia, dinâmicas e produtos do rock independente de Teresina no início do século XXI”, busquei analisar a estruturação de cenários roqueiros autorais em territórios distantes de grandes centros econômicos, políticos e mediáticos do Brasil, a partir do caso de Teresina, capital do Piauí.

O TRABALHO
Nesta investigação, arquitetada a partir do manuseio de um corpo variado de fontes documentais, assim como a interlocução direta com 34 agentes que atuam ou atuaram no segmento artístico-musical no decorrer do recorte temporal delimitado, verifiquei a existência de um segmento musical que atinge um estágio de (relativa) autonomia e especificidade, observado principalmente no acervo substancial de obras já geradas (foram mais de 200 produtos fonográficos catalogados) a partir das atividades de um conjunto de agentes e instâncias sociais que formam o rock autoral de Teresina. A despeito deste avanço substancial, possível principalmente devido aos efeitos da emergência de um ambiente digital que modifica dramaticamente os modos de produzir, circular e consumir música, alguns entraves para a consolidação destes contextos artístico-musicais ainda permanecem, e estão ligados principalmente à sustentabilidade financeira da empreitada artística “independente”, assim como a visibilidade destas obras num mundo que produz e consome música em um volume e velocidade jamais visto até então.

GUIA DE LEITURA
Na medida em que este trabalho teve que seguir algumas regras específicas do ambiente institucional em que foi concebido (mais especificamente, o contexto universitário português), um guia de leitura se faz conveniente, uma vez que acredito que o tema possa ser de interesse para pessoas não necessariamente vinculadas ao ambiente da pesquisa acadêmica. Portanto, se o leitor estiver interessado estritamente na discussão a respeito do rock teresinense, após a leitura da introdução, pode pular diretamente para o capítulo 6, parte da tese onde inicia a análise propriamente dita. Caso haja um interesse específico pelo quadro teórico-metodológico, a leitura completa, ou substancial, dos cinco primeiros capítulos, além, claro, da análise, é altamente recomendada. Pode existir ainda o leitor não necessariamente interessado em teoria e metodologia, mas que tenha interesse a respeito dos desdobramentos específicos de alguns tópicos no contexto brasileiro. Assim, buscou-se discutir sejam os contornos que o rock adquire no país (capítulo 2), sejam as especificidades do discurso da “independência musical” (capítulo 3). Por último, vale ressaltar que houve um esforço de escrita no intuito de possibilitar a leitura em separado de cada um dos capítulos.

PLANOS FUTUROS
Acredito que o material gerado nesta pesquisa pode e deve ser trabalhado e divulgado para além dos formatos e instâncias acadêmicos. Assim, o intuito é que o trabalho não pare por aqui. Em primeiro lugar, pelo fato da existência de um vasto material de entrevistas registradas em vídeo, já transcritas, e que podem vir a ser divulgadas em diferentes mídias. Em segundo lugar, pelo fato de que a investigação proporcionou reunir e sistematizar um conjunto extenso de dados a respeito do rock autoral teresinense (tabelas de artistas solo e bandas, entidades promotoras de eventos, espaços de fruição, registros fonográficos, videoclipes), que podem ser conferidos nos anexos no final da tese, e que pretendo disponibiliza-las em formato de site ou blogue.

AGRADECIMENTOS
Um trabalho desta natureza não se constrói sozinho. Foram muitas as pessoas que, em momentos diversos, me ajudaram a avançar pelas trilhas, por vezes, sinuosas, que compõem um doutorado. Em primeiro lugar, não posso deixar de agradecer aos meus interlocutores na pesquisa, alguns dos quais velhos conhecidos, outros, amigos que fiz no decorrer dessa jornada. Assim, o meu muito obrigado a Javé “Montuchô”, Ana Clara Ribeiro Lages, Caio Bruno, Diego Noleto, Fabiano de Cristo, Fábio Crazy, Filipe Poty, Guilherme Cerqueira (DJ Barão), Henrique Douglas, Hermano Medeiros, Joniel Veras, Júlio Baros, Makeh, Maurício Munk, Sandro Sertão, Jean Medeiros, Ricardo Totte, Sandro Sertão, Taiguara Bruno, Teófilo Lima, Thiago E, Valciãn Calixto, Ana Regina Rêgo, Alan Douglas, André Russo, Arthur V. Sousa, Caio Bruno, Clarissa Poty, José Quaresma, Larissa Gomes, Mitzy Passos, Pedro Jansen, Raquel Carvalho, Romana Naruna. Neste rol de notáveis, gostaria de sublinhar neste processo o papel da Ana Clara Ribeiro Lages. Além de me ajudar no contato com algumas pessoas importantes da nova música piauiense, foi fonte rara de incentivo, através da empatia transmitida em conversas que, a despeito de espaçadas no tempo-espaço, são sempre profundas e certeiras, sejam no Rio, Teresina, Porto, Bolonha ou Veneza. Aos amigos queridos que acompanharam de perto este processo no Porto e que proporcionaram momentos preciosos de entretenimento gratuito e apoio nas horas mais delicadas: Tahiana, por ser quem é, amiga-irmã, fato este que agradeço profundamente. Galera do Rés-da-Rua – Giancarlo, Carol e Tamy. Aos queridos amigos portugueses Ana, Joana e Rafael. À brasileirada, Lucas, Marcela, Nina, Ana Cecília, Reva, Dayane, Sael, Fred, Pedro, Elisângela, Paulo, Carol, Tobias e Myrna. Ao Pedro (cronista nato, de raciocínio rápido e preciso) e Fred (pelas boas risadas proporcionadas), eu agradeço principalmente a amizade plena de humor inteligente, atributo fundamental em qualquer ambiente acadêmico. Vocês vão longe! Ao Tobias e à Myrna gostaria de sublinhar o apoio na preparação do que veio a ser a minha defesa oral da tese. Os contributos de vocês foram fundamentais para que eu conseguisse articular uma fala “matadora”, que me deu a segurança necessária para a exposição do material de pesquisa ao júri português. Aos amigos queridos que, mesmo distantes geograficamente, foram uma fonte de incentivo fundamental. Paulo Fernando Carvalho Lopes, mestre-amigo, que tem sido uma referência intelectual e humana desde a iniciação científica. Clarissa Poty, pelo feeling inspirador que exala quando disserta a respeito da música piauiense, e que gentilmente leu parte preliminar da tese, ressaltando lacunas e sugerindo vários insights. Rafa Beleleu, pela inteligência fina, com rompantes ferozes de humor, por vezes, injustamente incompreendidos. Aos amigos que me forneceram o suporte logístico em Teresina, e cuja amizade o tempo não se atreve a enfraquecer – Carlos e Emanuel, grandes irmãos que fiz na Chapada do Corisco.
À minha família, pelo afeto e torcida sincera que pude ir visualizando com mais clareza à medida que o processo transcorria – Tahiana, Alves e Ivane. O baile segue! Estamos mais fortes do que nunca. Às minhas famílias que o mundo presenteou e que contribuíram com doses inspiradoras de afeto e incentivo. À família do Rio – tio Alcione, tia Denise e a sua trupe –, pelo carinho e energia positiva que sempre exalam com suas presenças. À “famiglia” italiana – Emilio, Valeria e Greg –, cujo humor, sinceridade, empatia e profundos conhecimentos transmitidos têm-me proporcionado experiências singulares, processos que provavelmente jamais teria de outra forma. À galera da música com quem já toquei. Desde as bandas Metafísica (Fabrício, Tahiana, Michel, Fábio, Vinícius Tatu), Tertúlia (Maluco Celso, Íthalo Babyliss, Tarcísio, Fabrício), a galera da VBJR em Teresina (Fúlvio da Mata, Dudu Leão da Jamaica, Caio das Neves, James do Gueto, Karina). Meus parceiros Chico Kaefe – fonte de admiração constante por conta do seu espírito e dons artísticos e intelectuais privilegiados – e Janek Sommer – por me proporcionar incríveis deambulações músico-existenciais nas ruas do Porto. Por último, gostaria de agradecer à galera do Ultrópico Solar e agregados, que tem fornecido nos últimos tempos ainda mais subsídios empíricos e afetivos para acreditar na pertinência do tipo de trabalho agora apresentado. Levi, Paula, Daniel, Marília, Lucas, Savina Tahiana, “titi” Teófilo, Hugo dos Santos, vocês são foda! Às pessoas que se disponibilizaram a conceder depoimentos para esta investigação mas que, por conta de certas circunstâncias que fugiam ao meu controle na altura da pesquisa de campo, não foi possível a efetivação – Jan Pablo, Machado Júnior, Galvão Júnior.
À Alessandra Mota, pela revisão ortográfica do texto.
À querida Ana Saladrigas, pelo suporte fundamental nos períodos em que precisava trabalhar certas questões de foro íntimo e que foram por si conduzidas com um incrível mix de competência e sensibilidade. Alguém que provavelmente esqueci, fica aqui registrado também o agradecimento. Todos deram a sua contribuição para os méritos que, porventura, esta investigação tenha alcançado. As possíveis lacunas podem, obviamente, ser colocadas na minha conta. Por último, por tudo o que tem feito, seja no nível pessoal, seja no nível profissional, gostaria de agradecer à querida Irene. Suspeito de que eu simplesmente não teria chegado ao fim deste percurso sem o seu auxílio intelectual e afetivo no decorrer de todo o processo. O simples fato de teres aparecido e permanecido na minha vida é um privilégio que procuro fruir dia após dia. Se eu posso afirmar categoricamente a maravilha que tem sido a vida até agora, boa parte da segurança nessa afirmação se deve à nossa convivência.
Boa leitura a quem possa interessar! 

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